small trips 5

Gosto de viajar de comboio. Ficamos com mãos e pés livres, temos um bar e uma janela só nossa por onde se esborratam paisagens.

Note-se que ainda me lembro de viagens em comboios a vapôr entre o Porto e Paredes do Douro. Era uma emoção ver chegar a máquina resfolgante e lustrosa com uma dignidade de Buster Keaton nas bielas. Tinham compartimentos com porta independente para o exterior como que a sugerir comportamentos suicidas. Em Valongo, na estação brotavam frenéticas mulheres a venderem regueifas, um pão de trigo em forma de roda e comprávamos sempre uma. A nossa mãe dizia-nos para não pôr a cabeça de fora da janela por causa das faúlhas mas era irresistível até porque quando passávamos num túnel ficávamos todos enfarruscados. É claro que a cara dos meus irmãos era hilariante subitamente transformados em crianças Dickens o que exigia redobrado trabalho de lavagem para chegarmos apresentáveis ao destino.

Entre Aveiro e Lisboa, agora no AlfaPendular entretenho-me a desenhar. Ainda bem que há pessoas que adormecem. A trepidação do comboio ajuda a dar uma expressão à linha parecida com a do Siza Vieira (que muito admiro e que, julgo, em garoto terá ficado também enfarruscado na linha do Minho ou do Douro).

self portrait with sleeping gentleman in an aveiro/lisbon train trip

 

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